Wednesday, 8 July 2020

Água mami: relato de um parto (em tempos de pandemia)

            O primeiro sinal surgiu a caminhar pelo jardim, numa tarde de inícios de maio. Um dia como tantos outros, aparentemente desirmanado do calendário, estranhamente calmo, pandémico. Nesse tempo, todo o seu corpo se habituara a escutar-se a si próprio, em busca de provas, e agora elas despontavam, inexplicavelmente, fora do corpo. Bastou que uma folha de palmeira se mexesse alguns milímetros para que tudo mudasse. O silêncio em torno da casa ganhou outra textura, como se se tivesse aberto e dentro dele se revelasse um lago, e as águas desse lago tremessem a cada passo que dava, em torno ao jardim, até formarem uma ligeiríssima onda. Vivia-se a tarde do dia 3 de maio. Era dia da mãe, e também o primeiro dia a seguir ao fim do estado de emergência. Seria também este o momento em que deixava de estar grávida?

Guardou para si o pequeno conhecimento da folha de palmeira e observou-o de todos o lados, enquanto alargava o passeio confinado. Sempre que alcançava a folha, aquela que ultrapassa o muro do jardim e alcança o cimento fendido por ervas daninhas, surgia o lago, com a sua levíssima onda a viajar até à orla. E a onda impelia-a a continuar. Só mais uma volta. A cada passo, inquiria o saber alcançado, que era mais que um saber, era uma espécie de poder. Às voltas em redor da casa, imaginava que essa casa era um enorme guarda sol, e o braço da palmeira o braço do guarda-sol, e o jardim uma grande praia. Fora assim que aprendera a andar, às voltas agarrada a um guarda-sol, numa praia do norte, diziam-lhe os pais. E isso agora fazia sentido. Os últimos meses afiguraram-se-lhe como um longo passeio circular em redor de alguma coisa, a cabeça a tocar na cauda, os regressos a cheirarem a cauda das partidas, o interior a recomeçar-se no exterior, e os meses a espraiarem-se por toda uma vida, ao longo da qual deixara de saber onde começava e onde terminava. Era isso estar grávida.

Pensou: a onda vai imobilizar-se se eu parar de caminhar. E assim aconteceu. Ao entrar em casa, foi como se nada tivesse acontecido. Não contou a ninguém. Mas o lago lá estava, expectante, como um espelho de água num dia sem vento. Depois do jantar, a filha virou-se para ela e disse: água mami. Ela anuiu e subiram as escadas juntas, de mão dada, um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez onze doze treze catorze quinze desaaaa-seis rumo à banheira, que encheram por metade. A barriga ocupava muito espaço e a filha parecia hipnotizada com a visão daquele monte, tocando o umbigo que lhe parecia um nariz. Na banheira, as ondas multiplicaram-se, recomeçando com novo ímpeto e espraiando-se pelo dia seguinte.

A viagem para o hospital deu-se à meia noite e meia do dia 5, quando as ondas se tornaram constantes. O marido queria ir mais cedo, mas ela preferiu ouvir-se a si própria. À chegada, depararam-se com a incredulidade mal escondida do enfermeiro, que não estavam à espera de um parto não induzido. Qual o motivo da sua visita? e a pergunta deixou-a atónita. Demorou uns segundos para lhe responder, decidindo para isso não usar a palavra onda, para não espantar ainda mais o homem. Mas não marcou com a sua médica uma data para o parto? Não, não marcara. Esperara. Após lhe medir a temperatura, pediu-lhe que se sentasse na cadeira dos CTGs, onde permaneceu, obediente, munida da máscara e do audio-livro no telemóvel, à espera que a máquina confirmasse o óbvio. Nos auriculares, uma voz narrava uma imagem de um tapete voador que abraçava, como uma mão fechada, todas as mulheres que a ele se entregassem. Já ganhou um bilhete de entrada, sorriu o enfermeiro, enquanto analisava o gráfico das contrações, como se lhe estivesse a dar uma grande notícia. Numa outra sala, a enfermeira esperava-a. Não se sentou, embora a cada onda sentisse necessidade de se apoiar em alguma coisa. Só que o medo do contágio impelia-a para longe das superfícies. Encostou o ombro à parede. Aproveitou o tempo entre duas ondas para esfregar as mãos com desinfetante. Antes de abrir as pernas para o ritual seguinte, o do toque, fez o que tinha decidido fazer sempre que alguém lhe quisesse tocar no corpo. Pediu que lhe explicasse a razão da necessidade. E a enfermeira explicou, e no seu entender fê-lo bem, não seria maldosa, viu isso, não sabe como mas viu-o, na voz escondida debaixo da máscara. Então ela abriu as pernas, e permitiu que a invadisse. Três centímetros. Os três centímetros ecoaram pela sala e dispersaram-se pelos corredores vazios. Só três centímetros. Reparou então que o hospital era uma ilha na noite, habitada apenas por dois enfermeiros e uma grávida. Uma ilha no meio da pandemia, rodeada de ondas. Escondida por detrás da máscara, que era demasiado grande para a sua cara, sentiu-se só.

Vai querer uma epidural?, perguntou-lhe como quem oferece um café a alguém que se senta para almoçar. A enfermeira escreveu na folha que não. Ofereceu-lhe também uma cadeira de rodas, mas já tinha percebido que as ondas eram mais fortes quando se sentava, por isso declinou. Agarrada às paredes, percorreu por entre as ondas aqueles corredores vazios, assolados por uma energia pandémica silenciosa. Dentro do quarto, esperava-a as malas e o marido, já sem máscara, a quem não tinham tirado a temperatura, e a quem não iriam, afinal, fazer o teste pandémico. Teria que permanecer no quarto sem sair, até que tudo se resolvesse. Até os presos têm direito a meia hora por dia ao ar livre, queixou-se no seu português quebrado. Mas todos fingiram não ouvir. Após lavar as mãos novamente, continuou com o audio-livro, já deitada. Testaram-na à covid, enfiando-lhe um longo tubo pelo nariz. Tinha visto na televisão muita gente a fazer testes e todos apareciam sentados, de mãos nas pernas e cabeça inclinada para trás, oferecendo o nariz aos enfermeiros numa imagem que poderia ser de docilidade e paz, mas que, afinal, como num quadro da Paula Rego, era de medo, poder e submissão perante os extenuantes plásticos dos enfermeiros. Porém, ninguém vinha depois dizer que doía. Agora descobria que era uma experiência dolorosa que a distraiu das ondas por uns instantes. Colocaram-lhe um cateter na mão. Voltaram a cingir-lhe os movimentos com outro CTG, informando-a que, se quisesse ir à casa de banho, teria de chamar alguém para a desamarrar. E novamente: vai querer uma epidural? Depois desapareceram pela ilha adentro antes que ela pudesse perguntar-lhes onde estava o botão de chamada.

A barriga estava demasiado apertada. Queria mexer-se, caminhar, reclamar, e tê-lo-ia feito se esta fosse a primeira vez, mas resolveu aguentar o incómodo. Era importante não desperdiçar nenhuma força, sabia o que aí vinha, um ciclo de ondas que se intensificaria pela noite dentro até à exaustão, e era importante não desperdiçar energias. Concentrou-se na respiração e tentou descontrair-se com a ajuda das imagens do audio livro. Os exercícios de respiração acalmaram-na e foi aceitando cada onda, deixando que ela surgisse, abrisse, e se espraiasse. O marido deitara-se entretanto no sofá-cama, mas notava-se pela respiração que estava alerta a cada som.

Às 05h30 as imagens que ouvia deixaram de a ajudar. Repara que não se mexera da cama desde que ali chegara, e que, não sabe exatamente quando, deixara de apreciar o fluir das ondas, passando a suportá-las, cada vez com mais dificuldade. Resolve pedir ajuda. As enfermeiras surgem dos corredores pandémicos e dizem-lhe que vão fazer o toque. 5 centímetros, ainda a tempo de uma epidural, se ela quiser. No meio das ondas constantes, ela pede que lhe expliquem o procedimento e recebe então uma explicação detalhada, Vai sentir-se no céu, mas antes disso tem que vir uma médica fazer um novo toque e avaliar a situação. Ela nega-se a um terceiro toque, em seu entender inútil, e perante a insistência das enfermeiras, começa a ficar nervosa. O bebé dá sinais de desconforto, que se traduzem num alarme vibrante do CTG. O marido acorda. Ponha-se de quatro em cima da cama. Foi o que bastou para o bebé acalmar e as dores melhorarem. Por que razão a obrigavam a estar amarrada a uma cama toda a noite? Lembrou-se das voltas que tinha dado em redor da casa, e perguntou-se como seria se o parto estivesse a acontecer no seu próprio quarto, na sua banheira, junto aos seus. Talvez nessa situação não precisasse de anestesias. Quando chegou a médica, voltou a dizer-lhe através da máscara que não queria mais um toque. Tinha um receio real que lhe rompessem as águas artificialmente durante essa operação táctil. As enfermeiras, vestidas de igual e com a mesma expressão, reuniram-se então com a médica, uma mulher mais baixa, a um canto do quarto para decidirem que estavam perante uma ‘naturalista’. Após esta pequena conferência, anunciaram que está bem, não é preciso novo toque, como se fossem elas a decidir e não ela, vamos chamar a anestesista para a epidural.

Tens a certeza? O marido tinha assistido a tudo em silêncio. Nos meses anteriores, tinham falado em evitar a epidural, mas não a todo o custo. A memória do parto anterior pairava entre eles. No entanto, a pergunta fez despontar a cabeça do monstro da culpa. Como se estivesse a fracassar. A vontade de chorar, engoliu-a nesse momento. Apesar das dúvidas, escolheu dizer que tinha a certeza, deixa-te guiar por mim. Na verdade, só quando lhe espetaram a agulha nas costas e sentiu uma dor fina e fria a percorrer-lhe o corredor da espinha é que soube. A escolha era certa, não tinha fracassado.

Com efeito, começou logo a sentir-se no céu, e todo o seu corpo serenou, juntamente com o do marido, como se a agulha se tivesse alongado das costas dela até às dele. Podia agora esticar-se na cama e esperar que as ondas surgissem, uma e outra, e outra, e outra. Já não estava na orla da praia mas desse novo lugar podia observar as ondas ao longe, a alisarem a areia, subindo pela praia e anunciando a maré cheia. Reparou, pela primeira vez, no som dos batimentos cardíacos do bebé, que a máquina do CTG lhe trazia constantemente, como uma promessa. Fechou os olhos e respirou fundo. O bebé estava mais perto e vinha a cavalo, num trote constante. Cada vez mais perto do local de encontro. De olhos fechados, ela abandonou o audio-livro e deixou que o som do bebé a cavalo a guiasse até esse local por ele combinado. Tudo o que tinha de fazer era deixar-se guiar. A passagem era cada vez maior. 6 centímetros, 7 centímetros, 8 centímetros.

Aos 9 centímetros, as ondas alcançaram-na novamente e percebeu desta vez que eram mornas. Tinham-se rompido as águas, as mesmas que envolviam o bebé e que agora a envolviam a ela, revertendo a lógica da barriga. Era ela que nascia? Era ele quem a esperava? Tudo se intensificou. Olhou para o marido, que teria de permanecer no quarto durante a última fase do parto, e emocionou-se. Vai correr tudo bem, disseram um ao outro, a imitar o slogan dos pósteres com arco-íris a começar e a terminar em nuvens colados nas janelas por esse país fora, mas não deu para ver se estavam a sorrir.

As luzes do teto passam-lhe agora por cima da máscara até à sala de parto, onde lhe pedem que rebole para outra cama. Seguram-lhe as pernas ao alto e encaixam-nas nos apoios, mas um deles, o da esquerda é desconfortável. Ela quer mexer-se mas está, uma vez mais, imobilizada, para que a médica possa estar confortavelmente sentada num banco entre as suas pernas. Nessa sala começa a fazer força, era tudo o que o corpo lhe pedia que fizesse. Faz força até o pescoço ficar vermelho, mas logo lhe dizem que está a fazer mal, tem que ser mais abaixo, a partir da barriga. O mesmo erro da última vez que pariu, e logo imagens difíceis lhe sobem ao cérebro, as mesmas que nos últimos meses procurara manter debaixo do tapete da memória. Concentra-se e volta a tentar.  A intensidade é inacreditável. Sente o bebé a descer devagar dentro de si e essa sensação é nova, apesar de ser uma segunda gravidez sente o que nunca sentiu e volta a fazer força, agora sem sequer pensar na técnica do que está a fazer. O corpo entra em auto piloto, desaparece tudo, a médica, o corredor com as luzes pálidas, o marido preso no quarto, a cama que a apoia, a máscara que a esconde, as pernas levantadas, o cateter, até ficar só a voz dela e o bebé, ela grita como se a sua vida dependesse disso, o bebé avança, o corpo abre um pouco mais e torna-se verdadeiramente uma passagem, não só para o bebé mas para ela também, ela uma vez mais criadora de algo verdadeiramente novo, daqui a pouco vai sentir-se no céu está quase estou a tocar-lhe na cabeça mais uma vez força mais uma vez gritos, mas compassados com silêncios, não tem nada a ver com o que se vê nos filmes, o bebé desce devagar como se sentisse já uma certa nostalgia e quisesse despedir-se por fim daquela cápsula morna que nunca mais vai poder tocar cheirar sentir ela gostava que lhe dissessem que está a ir bem e que está quase por favor digam-me que está quase vou dar-lhe uma ajudinha rasga-se a pele aqui mais força mais força e o bebé já não desce mas desliza e transferem-no para os meus braços.

    É um rapaz quem chora agora. A máscara volta a surgir e absorve as minhas lágrimas, sempre serve para alguma coisa, estou convencida de que fui eu quem nasci guiada por ti, para poder encontrar esta voz que agora aqui relata coisas do outro mundo, o mundo que deixei para trás como uma pele de cobra no momento em que disse

Benjamim. O que tens para me ensinar?

Já no quarto, a enfermeira informa-me que não estou contaminada, e que por isso ninguém me vai tirar o bebé por duas semanas. Respiramos de alívio, e abraço-te com mais força. Lá fora, o dia nasce no mundo velho, por entre curvas achatadas, máscaras descartadas no lixo errado, mortes, festas ilegais, protestos anti-racistas e estátuas tombadas no chão, tudo como acontece nos filmes. 

Benjamim, o que tens para nos ensinar?







Wednesday, 20 March 2019

Baby, interrupted.




Dear reader,

How I have neglected you (yet again)! Happy Spring and greetings from the depths of maternity leave. When I started writing this post, I was halfway through ML, which meant I was a few days from getting my last full pay check until I got back to work in six months’ time. I felt it was time to sit down and write my thoughts on what was going on, while Joaninha enjoyed her morning nap next door. On my right, the phone was telling me that Bolsonaro had won the elections. I remember experiencing a wave of despair running through me, followed by Joaninha’s inevitable wake up cry. And so I got up before I even started. Needless to say, the blog post did not see the light of day that month.

Then I blinked and she was 9 months old, her first tooth cutting through her gums (and sometimes my breast), my sleep deprivation reaching new heights because of something called separation anxiety and the unexpected fevers that came with the bexsero vaccine. My beloved Mozambique submerged by a cyclone. Brexit still going bonkers. Somehow, during this time at home, I had managed to write a few lines for the blog, these very few lines you are reading, whilst keeping my baby alive and taking care of the house. I'm still not sure how that happened. In other words, I was starting to understand this new way of living and writing – constantly interrupted by cries, poos and wees, each interruption bringing me back to her body in need of mine. I soon realised that, if I wanted to carry on writing, if only a few sentences here and there, I had to change my relationship with technology. Forget about the laptop. My new best friend was now the note app, which I could reach quickly every time I needed to write something down, often with Joaninha hanging from my boob.

A sentence I noted there one night, sitting down in the bathroom (pretending I was peeing): “This maternity leave has plunged me into my body.” My note app is packed with these silly sentences. I call them silly when I compare them to the urgency of my daughter’s cry, which does not need words to make sense. A wordless dictionary in my body decodes the cry and urges me to run to her and I never write notes about the complexity of that urge. I feel simultaneously sorry and happy that my sleep deprived mind is unable to write about it.

It is not unusual that I keep on writing  while Joaninha is crying. I should be running to her and yet I steal seconds, sometimes minutes, to write stuff like this on my phone. I write only when I refrain from going straight away. Which is another way of saying that I now write only when I feel guilty. By interrupting my presence in front of her, I remind myself that I am me and she is not me. 

I need reminding.

Wednesday, 10 January 2018

Notes on the French Letter



Reader!

By now you know me well enough to understand that I could not resist the temptation to write about the appearance of an all-female authored French Letter.

I know I should be marking.
I know I should be preparing my lectures.
But it's impossible.

Instead, here I am, looking at the French Letter like a rabbit caught in the headlights. I feel guilty that I’m engaging in the wrong kind of writing but I'm trying not to care (much). That’s my motto for 2018.

Maybe it’s because I’ve been watching too many French series on Netflix. Or maybe my high-school French teachers actually did a fine job. The truth is I was able to find my way through “Les Femmes libèrent une autre parole” and understand most of it.

The whole text is premised on one assumption: the #metoo movement coerces women to speak out in the name of puritanism, as the eternal victims, pauvres petites choses sous l’emprise de phallocrates demons, comme aux bon vieux temps de la sorcellerie”. According to the authors, the freedom to speak out has become its opposite. In other words, #metoo has gone too far: “La vague purificatoire ne semble connaître aucune limite.” It has crossed to the other side, and now the victims become those men who have been constrained to quit their jobs without being able to defend themselves:

En face, les hommes sont sommés de battre leur coulpe et de dénicher, au fin fond de leur conscience rétrospective, un « comportement déplacé » qu’ils auraient pu avoir voici dix, vingt, ou trente ans, et dont ils devraient se repentir. La confession publique, l’incursion de procureurs autoproclamés dans la sphère privée, voilà qui installe comme un climat de société totalitaire.
 
This situation, it is argued, has led to the entrenchment of a symbolic struggle that opposes women to men, a struggle that educated French women, in their sensuous, luscious and stylish way, have learned to overcome. As a French journalist speaking on the BBC radio 4 this morning (10 January 2018) explained to a gobsmacked British counterpart, and I paraphrase, she signed the letter because women in France are not monolithic like women in the UK and in America. Women in these other countries are black and white, which makes them very good at building computers, while women in France are more colourful and complex. They are not afraid of men and are able to stand up for themselves if they are the victims of an attack, without the need to rely on pre-established laws.

Never mind the clear white female upper-middle class viewpoint that is being expressed above. What really struck a chord was the manner in which the French Letter attempted to fit the whole #metoo movement in a “both sides of the Atlantic” argument (Miguel Vale de Almeida also finds it difficult to escape the expression in his blog post, although he prefers to write "both sides of the puddle"), as if the women who have been getting involved were simply British/American and French. While this is mostly true, it is not entirely true, as women in Russia, Egypt and China, to mention but a few other countries, have joined their voices to the outcry. The use of the word “puritanisme”, which appears in the second paragraph of the letter, and then again in the third paragraph (“purificatoire”), re-centres the #metoo movement on old Anglo-French disputes, and in doing so, reinstates feminist international hierarchies as it discusses the legitimacy of who can speak in the name of (which) women.

Allow me to unpack just a little. Women’s sexual empowerment has always depended on the circulation of ideas, and this is one good reason why national boundaries should never be discarded when discussing feminisms. Whoever has done research on this subject knows well that there are centres within centres, and margins within margins. In the case of the French Letter, this knowledge is literally swept under the carpet. Here, the stories that make up the #metoo movement are used – they are discarded, or meshed into a simplified group – in order to confirm, once more, the boundaries of the white French and Anglo-American viewpoints. In that sense, this French Letter is useful insofar as it allows a reflection to occur about important questions relating to femininity and feminism that have been hanging around since at least the early years of the Women’s Movement in the late 1960s and early 1970s. How can we subvert relations of domination in the world through the use of words? Who can legitimately speak up in the name of women? 


What I think the #metoo movement has achieved is this: a greater understanding of the importance of being taken seriously as a public speaker. However, this is unfortunately read as going too far by the authors of the French Letter. According to them, one way in which #metoo has gone too far is that it has allowed for the work of men to be confused with the men themselves: “dans la confusion absurde de l’homme et de l’œuvre, on demande l’interdiction de la rétrospective Roman Polanski à la Cinémathèque, (…) [et on juge] le film Blow Up de Michelangelo Antonioni « misogyne » et « inacceptable.”

In this context, it is interesting to note how the legitimacy of the writers of the letter has been sealed – in both the French and UK media and, I suspect, around the world too - by the signature of Catherine Deneuve as the icon of French sexual open-mindedness. A similar confusion between the femme and the oeuvre, which undergirds Anglo-French disseminations of the contents of the letter, namely with reference to Deneuve’s participation in Belle de Jour, is at the heart of the dissemination of the letter, and this does not seem to be upsetting anyone:
“The Oscar-nominated Deneuve, 74, is best known internationally for playing a bored housewife who spends her afternoons as a prostitute in Luis Buñuel’s classic 1967 film Belle de Jour.” (The Guardian)
By lending her symbolic capital to the French Letter’s purposes, Deneuve is not only providing the prestige that will guarantee great media coverage. She is also showing, perhaps inadvertently, that the question of who is a legitimate speaker, whether in film or in real life (or in both) is part and parcel of what engenders schemes of perception out there, in the world. Deneuve knows this as well as Buñuel, Antonioni or Polanski.

The #metoo movement is not about the shaming of men or the victimisation of women, but about their, both men and women’s, empowerment through the spoken word. Before #metoo, women (and some men) could speak and scream about harassment but most would not be taken seriously. With #metoo, they are being taken seriously as legitimate speakers. They are being heard. For most women out there, and I’m talking about women whose identity is partially defined not only by the geographical margins that they inhabit but also in relation to the dominant (Anglo-French) feminist discourses that circulate around the world, for those women, speaking out is not a way of enforcing female victimisation. In a culture that cherishes silence about sexual harassment, opening your mouth and speaking out is the ultimate act of empowerment.

Sunday, 10 December 2017

The grant and the strawberry: a bundle of joy and strain (and so much joy!)


Hello reader,

It was week zero when news of the grant came. I was sitting at my desk in the office, alone, writing emails and shifting rapidly inside my head between the term’s teaching, research and admin. When the email dropped I literally started shaking. Once I opened it and read the news I was ecstatic. I had just landed a 2 year AHRC Early Career Leadership Fellows grant for research on memory and mobility in the Brown Atlantic. The title: “Women of the Brown Atlantic: Real and Imaginary Passages in Portuguese 1711-2011.” Three years of work and preparation had finally paid off.

But as I descended from the clouds of jubilation, I couldn’t even share the news on social media. I felt excited but also humbled, and mostly fearful of the task ahead of me. Going through the application documents I marvelled at the meaning(lessness) of what I had achieved. As I read the title of my grant, I did not particularly believe that I was a leader in the making. I felt leader-ish at best. How on earth was I going to deliver all this in two years? When were my partners and mentors going to find out that this is, indeed, an insane project and I’m not fit for the job? Yes, for the next two years, I didn’t have to worry about getting any funding for my research, and maybe this would even translate into more good news about a possible early promotion, which was very cool. For the next two years, I could take a deep breadth: everything would be alright. For two years. And then the chase would be on again, and the pressure to apply for new grants would come back with a vengeance.

I felt nauseous.

In fact, something was happening to me. To my body, that is. I can only describe it as a sort of mutation glimpsed daily through the corner of my eye. I was experiencing a lot of tiredness, like I had been hit by a horse tranquilizer. Term hadn’t even started and my body was already feeling like it was week 10. I initially attributed it to my mind’s inability to rise up to the Leadership Fellows challenge. But no, reader. This was something else entirely. Things were about to get even more, uh, interesting. Turns out I was not only a grant holder, I was a pregnant grant holder! Now I had to be both a productive and reproductive leader, all at the same time.

No pressure.





It was an interesting discovery, learning that, whilst my mind was totally focused on the perils of getting what you want from the AHRC, my body indifferently hosted a little strawberry (every week they call it a different fruit or veg) with limbs.

The strawberry, soon to become a prune and then a lime in my belly, according to the wisdom of the latest apps, is the most accomplished example of the force that I believe drives us: what my mother would call miracles, what I prefer to call luck. A single sperm, out of three hundred million, somehow found a passage through me and survived, while MILLIONS died trying to cross over, and, choosing the right corridor containing the fertilized prize, surged against motions without getting trapped, attaching itself to the prize, and somehow – SOMEHOW! – my body didn’t reject the resulting bean. What are the odds of that happening? To a 38 year old? So, you see, the strawberry is already teaching me important life lessons. 

Take your prize, recognise how lucky you got, and get on with it.

How can I put it into words? The whole situation suddenly felt, let me tell you, liberating. More exactly, the passages between the grant and the strawberry were liberating. Through them, a passage to Portugal was crystallising. Short term, I know. But long term has its perils. It’s the bridge I was looking for. Non-permanent, but real. A route transporting me elsewhere, inside my body and in my imagination, and outside it, through the ocean, through the skin, away from Brexit for a white. Expanding, like the universe.

But what if?

What if I end up only half-doing everything, once the little strawberry arrives? Until now, I thought my dedication to what I do was undying. Now the little one inside me, comfortably tucked away in the darkest regions of my belly, will soon be a totally helpless human being, demanding constant attention, and a lot more. I hold a permanent lectureship, so I am entitled to paid maternal leave, and most importantly, I don’t (think I) have to worry about losing my job. I have all the support in the world from my family and colleagues. But what about the rest? How will I be able to travel to conferences and archives with a little one? Have I got what it takes to be both a forward-moving Leadership Fellow and an academic and a mother? Will I have the energy? I could carry the child with me everywhere in the beginning. But how will my colleagues, project partners and students react to that? Will I be taken less seriously? The feminist inside cannot but conjure the image of an inevitably stalled career ahead.

These and other questions come to me usually just before I fall asleep, which totally defeats the purpose of enjoying every hour of my current childless life. I can still spend more than three hours writing a lecture on Virgem Margarida, read more than a few pages of fiction before going to sleep for 8 hours (though now with lots of trips to the loo), and attend conferences in London without having to worry about child-care. Once the little one arrives, all of this will be gone.




It’s an incredibly wonderful thing, being lucky. But I confess I feel a bit lost, despite all the wonder and excitement. Having strong academic role models who are also mothers is a great source of inspiration, but somehow it is not enough. Where are the babies and the children in academia? I see them only when I go to my colleagues’ family-friendly parties. At 9pm they vanish into thin air and become invisible to me, only to return surreptitiously in reading week, now much bigger, holding their parents’ hands, in student-less corridors. Where do they go, and why do they go, academic parents of the world? Where are the spaces for mothering and fathering in academia? Where are the crossings, the passageways?





Everything will change, they say. As I dive into the Brown Atlantic in search of the real and imaginary passages of women, my child will inevitably dive in with me, as we look for answers – and passages – together.



This is probably my first letter to you.

Monday, 13 November 2017

O cão que passou sem ladrar. #eutambém #metoo



Não vou falar aqui de todos os cães que ladraram ao passarem por mim: os piropos de todos os tipos, as perguntas retóricas porcas, os apalpões na discoteca e fora dela, as assobiadelas na rua e dentro dos portões da escola, as mãos desenvoltas a tocarem mais do que devem, os comportamentos e tiradas absurdas justificados pelo vinho em jantares de colégio britânico crème de la crème. Vou, pelo contrário, dedicar-me a contar o episódio de um cão que passou por mim sem ladrar, e desde já peço perdão aos animais a quem chamamos cães, cuja decência não está em causa.

Acho que era uma noite de primavera. Os dias cresciam e a calmia do lusco-fusco acontecia entre as 7h30 e as 8 da noite. Devia ter um doze ou treze anos. Saía das aulas de inglês, no cimo da vila, com um grupo de amigas. Sentíamo-nos grandes. Gostávamos de ir a pé para casa todas juntas, sem pais à espera em carros. Nessa noite, uma das amigas sugeriu que passássemos por uma rua diferente, para tentarmos criar um encontro “casual” com o rapaz mais velho por quem se apaixonara na escola. Talvez ele estivesse à janela, talvez estivesse a entrar em casa, venham lá, não demora nada, pá, vai ser divertido. Essa rua não tinha grande iluminação, ficava fora do caminho. Não gostei da ideia. Olha agora, ir atrás do rapaz, nem sequer sabes se ele está em casa, ou se gosta de ti, deixa-te de coisas, ainda o espantas. E decidi esperar por elas ali mesmo, no cruzamento da estrada que dá para a Câmara Municipal. Elas foram, entre risadas, e eu esperei, debaixo do poste da luz.

Passados uns minutos, aproxima-se um carro e pára a uns metros de mim. O condutor olha-me e sorri. Abre a porta do passageiro e chama-me. A minha primeira reação foi pensar que se tratava de alguém conhecido, esta vila é tão pequena, quem me diz a mim que não é um tio ou amigo dos meus pais a oferecer-me boleia. Aproximo-me com meio sorriso. Lembro-me do cabelo loiro penteado para trás e da pele baça. Lembro-me do sorriso nojento e das palavras, Entra, senta-te. Uma mão no volante, outra no assento do passageiro, a convidar-me. De repente, algo dentro de mim me diz: foge. E fechando a porta do carro, desatei a correr. Rua do Vale abaixo, passando pela ponte, até alcançar a Rua 25 de Abril. Parei apenas dentro do prédio, fechando a porta atrás de mim, sem fôlego. 

É aí, no vão da escada, que procuro restabelecer-me, controlar a respiração antes de entrar em casa. Ao abrirem a porta, os meus pais perguntam-me, Chegaste cedo, está tudo bem?, e eu, Sim, tudo bem. E as tuas amigas? Já foram para casa, mandam beijinhos. Vou para o meu quarto, e encerro dentro de mim um encontro que poderia ter mudado o rumo da minha vida e do meu corpo. Se o carro me tivesse perseguido, se o homem tivesse saído do carro, se....

Voltei a encontrar ocasionalmente esse homem pelas ruas da Sertã, e sempre que o via enchia-me de vergonha. Nunca percebi por que razão morria de vergonha sempre que ele passava. Uma vez, no carro com a minha mãe, ao saírmos da garagem, tivemos de dar passagem ao carro dele. Passou-nos pela frente como uma cena de filme em câmara lenta. Ele a olhar-nos com aquele sorriso nojento, o assento ao lado vago, para sempre a convidar, Entra, senta-te. E lembro-me de a minha mãe ter comentado o quanto aquele homem a incomodava. Fiz de conta que não ouvi, e tentei esconder a vermelhidão do rosto. Tenho a sensação de que a minha mãe também o odiava e temia, mas nunca falámos sobre isso. Havia a vergonha a preencher o espaço entre mim e a minha mãe. Aliás, nunca contei esta história a ninguém.


Pergunto-me quais terão sido as consequências deste meu silêncio, motivado pela vergonha. Sem ter cometido nada de errado, este episódio de tentativa de sedução de um homem mais velho contribuiu para incentivar em mim uma submissão silenciosa e cheia de vergonha no que diz respeito aos avanços agressivos dos cães que ladram, mas principalmente aos avanços dos que não ladram. Como se de certa forma eu, o meu corpo, fossemos culpados do que tantas vezes acontece quase sem acontecer. 

Eu escapei. Mas quantas crianças terão passado por aquele assento?